A Múmia (2017) – Vale a pena assistir?

Escrito por Fernando Medeiros

Recentemente, numa conversa, uma amiga falou que não entende pessoas que ficam vendo filmes procurando defeitos. Pra ela, se você consegue ver os defeitos, é porque o filme é ruim, não prende sua atenção, e você começa a se distrair com outras coisas, por exemplo, detalhes incoerentes, continuidade etc.
Eu discordei. Pra mim, é sim, possível, curtir um filme, ao mesmo tempo que se preocupa com outros aspectos dele, como mensagens, erros, metáforas, conexões… talvez seja coisa minha. O filme de hoje foi um ótimo exemplo dessa minha forma de ver filmes.

SINOPSE A MÚMIA (2017)

Milhares de anos atrás, no Egito Antigo, uma prometida rainha vê seu destino arrancado de si. Furiosa, Ahmanet (Sofia Boutella) faz um pacto com o Deus do Mal, para conseguir sua vingança, mas tem seus planos frustrados e é aprisionada. Nick (Tom Cruise) e seu amigo Vail (Jake Johnson) são soldados em serviço no Iraque, que procuram tesouros antigos para vender e ganhar um dinheiro extra (um verdadeiro Ladrão de Tumbas, #sdds Lara Croft e Nathan Drake). Enquanto fogem de rebeldes locais que destroem relíquias históricas (DAESH? Inclusive, perdoe o parênteses, mas esse é um crime imperdoável contra a história da humanidade), acabam localizando uma tumba egípcia antiga. Mas ué mas eles não estão no Iraque?
A Dra. Jenny Halsey (Annabelle Wallis), especialista em Egito antigo, vem ao Iraque a pedido do Dr. Henry (Russell Crowe, o nome do personagem é uma ótima referência), mas tem seu mapa roubado por… Nick. Sua missão é localizar restos de uma tumba perdida, e sua conexão com um recente túmulo templário localizado em Londres.

COMENTÁRIOS – O QUE EU GOSTEI

Vocês gostavam de A Múmia? Dos antigos, com o Brendan Fraser. Eu gostava muito do primeiro e do segundo (sim, mesmo com o 3D horrível do The Rock). Era muito divertido ver a galera tentando fugir de um mal ancestral e superpoderoso, usando armas como pistolas antigas e muita canastrice. E de Missão Impossível, você gosta? Tem alguns ruins, mas tem outros muito bons, com muita ação, coisa explodindo, plot raso mas que não é ruim. Você vai encontrar tudo isso aqui. E isso é muito bom. Como assim?

A Múmia, é um filme que entrega o que se propõe. Por que eu gosto de The Godfather? Porque entrega o que se propõe. Star Wars? Mesma coisa. Sharknado? Mesma coisa. Porque acho Equilibrium ruim? Porque não entrega. Esse é meu ponto, sempre.

Esse A Múmia é um ótimo filme de ação, para você se divertir. Tem humor na dose certa, apela pro terror algumas vezes, e tenta se manter um pouco mais sério do que a trilogia antiga. Isso é ótimo! Tem outras coisas também. O Tom Cruise é um ótimo Nathan…. Um ótimo Nick Morton. É de ação quando tem que ser de ação, é canastrão quando tem que ser canastrão, é engraçado quando tem que ser engraçado, é sério quando precisa ser sério. Eu não conhecia a Annabelle Wallis, e não esperei muito dela, mas ela entrega bem seu papel. Tava com saudades da Sofia Boutella desde Kingsman, e aqui ela volta como outra vilã, e manda bem. E é ótimo rever o Russell Crowe, principalmente quando não está cantando. É muito legal ver a recriação de ambientes históricos, e fica muito bonito (apesar de me faltar bagagem para ver se realmente os elementos que surgem pertenceriam ao Novo Império). E esse filme é um começo para o Dark Universe, uma tentativa da universal de fazer um Universo Marvel, com seus monstros clássicos no lugar de super-heróis. Não acho o melhor dos começos, mas dá pro gasto.
É um filme muito divertido, eu realmente recomendo que assistam.

COMENTÁRIOS – O QUE EU NÃO GOSTEI

Várias coisas. Dá pra dividir essa parte em várias camadas, mas vou tentar resumir um pouco mais.

A primeira é de roteiro. O plot inicial, ainda no Egito, é muito besta. Sério, nesse sentido, tragam o Imhotep de volta. Depois aparece uma certa empresa filantrópica (?), e toda a sequência com ela também te faz se encostar na cadeira e dizer “ham…”. E quando o filme tenta te assustar… Bom, poucas vezes funciona. Ele é muito melhor em te dar nojo e agonia, por exemplo. Nisso ele acerta muito bem (talvez até demais).

A segunda é em ritmo. O filme vai muito bem na primeira parte, ainda no Iraque, e tem uma das sequências mais legais do cinema (a do avião). Depois vem uma parte razoável já na Inglaterra e, do centro de pesquisa pro final, cai um pouco. Alguns conflitos estranhos surgem também nesse momento, tentando apelar para um sentimentalismo que não convence.

A terceira é que a p** do conflito “brancos contra mundo bárbaro” continua, véio! De novo a p** do americano/europeu vai salvar o mundo contra o mal, de novo o mal vem de uma cultura não secular ocidental, de novo tem brancos demais no filme! Tem mulheres e negros?, sim, eles estão lá, mas o de sempre, uma coisa meio “cotas”.

Lembra da polêmica do Deuses do Egito, de todos os deuses estarem mais pra nórdicos que pra africanos? Mesma coisa aqui (só não vou pegar mais pesado nessa crítica porque a atriz que faz a vilã principal é argelina).

Pelo menos nesse filme a gente vê que estão tentando mudar isso (nem que seja por motivos puramente capitalistas), mas gente, sério… Vou ser justo com o filme, ele não me ofendeu muito nesse sentido, não em perspectiva com outras obras que temos por aí. Na verdade, em vários momentos ele me surpreendeu positivamente. Por exemplo, um certo Deus do panteão egípcio é muito importante para a trama. Fui pesquisar sobre ele, para ver se não tinham mostrado uma face injusta, que não existia nos mitos, e vi que não estão errados. Talvez só tenham deixado de mostrar outras faces, essas não tão ruins. Mas pra mim ainda não foi suficiente. Se tentaram, e eu vi que tentaram, ainda falta conseguir.

CONCLUSÕES

Primeiro, sobre o filme. Ele é um EXCELENTE Tela Quente. Por favor, isso não é uma ofensa. Vários filmes grandes são excelentes “Telas Quentes”. Filmes de heróis, por exemplo. São filmes muito grandes, com muito buzz, mas quando você olha friamente são filmes legais e é isso aí. Te divertem naquele momento, e isso é ótimo. Tem vários problemas, citei alguns aqui, mas isso não quer dizer que não vale a pena ver. Vale sim.
Segundo, sobre minha reflexão inicial. Eu só vi o filme uma vez. Eu me diverti muito, e critiquei muito. Eu consegui curtir as cenas de ação, e consegui problematizar elas. Consegui fazer reflexões sem me perder na película. E eu não quero dizer que sou especial por isso. Só quero dizer que É POSSÍVEL.
O fato de você gostar de uma coisa não quer dizer que você deva ignorar os problemas que ela tem. E o fato de ver que algo tem problemas não deve te impedir de ver as coisas boas que ele pode lhe trazer. O lance é: Não deixe um minar o outro. Não deixe a diversão te cegar para os defeitos, você deve reparar, você deve comentar, você deve esperar que no futuro as coisas ocorram melhor. Não deixe os defeitos te impedirem de enxergar coisas legais, você ainda pode se divertir, ainda pode tirar frases que lhe modifiquem, ainda pode notar, pelo menos, como não quer que as coisas aconteçam.
Essas reflexões são muito positivas, e podem (na minha opinião, devem) ocorrer com tudo na vida. Em tempo real. Razão e emoção, juntas, sem se atrapalhar, mas se ajudando. Façam o exercício, que vale a pena.

Quase ia esquecendo, a nota. Eu daria entre 6 e 7, pro filme. Vou ficar com 6,5.

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